No final da década de 60, vai para Londres, onde exercerá funções de leitor no departamento luso-brasileiro do King’s College (1969-71). Aí regressará mais tarde, como «resident writer» a convite da Universidade de Londres, entre 1979 e 1980.
Autor vário, do romance à sátira política, passando pelo teatro e pela crónica, José Cardoso Pires é considerado um dos maiores e melhores prosadores e contadores de histórias da literatura portuguesa contemporânea, tendo obras traduzidas numa quinzena de línguas. Nunca tendo integrado qualquer corrente literária específica – considerava-se a si próprio um «integrado marginal» –, acusa, no entanto, influências várias, desde o neo-realismo, no início da carreira, ao surrealismo, passando por Tchekov e por autores americanos como Poe, Hemingway, Melville. Resulta daqui um realismo crítico de estilo muito pessoal, caracterizado por grande depuração, tanto ao nível narrativo como sintático e vocabular, uma prosa viva e objetiva que foi tendo na atividade jornalística, desenvolvida ao longo dos anos, a sua oficina permanente.
A ligação do autor ao jornalismo que começou na adolescência e que se manteve regularmente, tem como marcos mais importantes deste percurso as passagens pela revista Almanaque, pelo Jornal do Fundão, pelo Diário de Lisboa e pelo Público.
É também apontado à sua escrita um cariz cinematográfico, de certa forma corroborado pelas várias adaptações de textos seus para o cinema. A adaptação ao cinema de Balada da Praia dos Cães, realizado por José Fonseca e Costa, sobre o romance homónimo de 1982, valeu a Cardoso Pires o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Publica ainda em 1987 Alexandra Alpha, best-seller à época, representando um Portugal pós-1974, vendo nele toda a violência do conflito económico dos primeiros tempos da revolução. De profundis, Valsa Lenta (1997) uma das suas últimas obras a par com Lisboa – Diário de Bordo, é apresentada por Cardoso Pires “como uma «viagem à desmemória», num relato posterior ao acidente vascular cerebral que o atingiu em 1965, do qual fixa pormenores aleatórios, desconexos de quem veio das trevas de uma doença muito grave para a luz da memória.”. (Eunice Cabral, José Cardoso Pires, Centro Virtual Camões, pág. eletrónica)
Como dramaturgo, as suas peças O Render dos Heróis (1960) e Corpo Delito na Sala de Espelhos revelaram-se marcos importantes da dramaturgia portuguesa da segunda metade do século. O Render dos Heróis (1960), levada à cena pela primeira vez em 1965, no Teatro Império de Lisboa, com uma encenação histórica de Fernando Gusmão, música de Carlos Paredes e interpretações, entre outros, de Carmen Dolores e Rui de Carvalho, será mais tarde (1989) a peça escolhida para a inauguração do Teatro da Malaposta, desta vez com encenação de Mário Barradas e música de António Victorino de Almeida. Corpo Delito na Sala de Espelhos, uma análise do «submundo da polícia política e [do] tecido psicológico da sua identificação como corpo de terror», foi levada à cena em 1979 no Teatro Aberto, em Lisboa, também sob direção de Fernando Gusmão e com interpretações, entre outros, de Lia Gama, Mário Jacques e Rui Mendes.
Integrado Marginal – Biografia de José Cardoso Pires (Bruno Vieira Amaral, 2021) que condensa, no título, a tensão central da vida e da carreira do escritor: por um lado, plenamente integrado no panorama cultural e institucional português; por outro, marginal pela recusa das convenções, pela crítica aberta e pela postura de insubmissão. Apresenta Cardoso Pires como um autor exigente, para quem a escrita era um exercício de rigor e paciência, e que desenvolveu ao longo da sua escrita uma verdadeira “sintaxe citadina”, incorporando a experiência urbana na sua obra, marcada pela influência anglo-saxónica, determinante nas suas primeiras leituras e opções estéticas, rejeitando o sentimentalismo e o confessionalismo. Reconhecido como um dos maiores escritores portugueses do século XX, a sua obra permanece como um marco fundamental da literatura em língua portuguesa.
A sua obra foi premiada internacionalmente com o Prémio União Latina, Roma (1991); Astrolábio de Ouro do Prémio Ultimo Novecento, Pisa (1992) ; Prémio Especial da Associação de Críticos, de São Paulo, Brasil (1987) com Alexandra Alpha (1987); em Portugal, venceu o Prémio Camilo Castelo Branco com Hóspedes de Job (1963); Prémio D. Dinis e Prémio da Crítica, atribuído pela Associação Internacional de Críticos Literários com uma das suas últimas obras De Porfundis, Valsa Lenta (1997); tendo ainda o conjunto da obra sido distinguido com a atribuição, em 1997, do Prémio Pessoa e, em 1998, do Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. Foi ainda condecorado com a Ordem da Liberdade e a Grã-Cruz de Mérito Cultural.








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