Autodidacta de formação enciclopédica e às vezes um pouco prolixa, os seus trabalhos históricos, embora não possuam a profundidade de análise, a que a dispersão do labor não o autorizava, constituiram obra relevante no âmbito da divulgação popular, de certo modo ainda de acordo com o figurino romântico do escritor liberal dos meados do século XIX, de que afinal Rocha Martins era herdeiro ideológico.
Desde muito novo atraído por forte vocação para as letras, fez-se notar aos 15 anos pelos gerentes duma antiga fábrica de cerveja de Lisboa onde trabalhava, os quais lhe proporcionaram a possibilidade de frequentar o Curso Superior de Letras, que todavia veio a abandonar por total incompatibilidade entre o horário de trabalho e a disciplina das aulas. O seu primeiro trabalho a ser publicado foi um conto, inserido nas páginas do jornal Diário Popular, então dirigido por Mariano de Carvalho (jornal sem qualquer relação com o do mesmo título que se publicou-se entre 1942 e 1991). Passou depois ao jornal A Tarde, de Higino de Queirós, onde publicou uma série de contos. Foi contudo no jornal de Magalhães Lima, A Vanguarda, que o seu talento de jornalista atraiu as atenções do público com artigos políticos de combate, crónicas literárias e folhetins. O romance histórico, êxito maior de Rocha Martins, apresentado como folhetim jornalístico ou vendido pelas portas em fascículos, teve enorme influência no público citadino de tendências progressistas. Colaborou ainda no órgão do partido Regenerador-Liberal de João Franco, Jornal da Noite.
Aberto aos empreendimentos arrojados, passou à revista Ilustração Portuguesa na sua primeira série (1903), a qual dirigiu, imprimindo-lhe aspectos gráficos modernistas, técnicas de paginação que fizeram época e um estilo vivo e viril de palpitante actualidade. Num País tradicionalmente agreste para quem quisesse viver da pena, só um profissional de múltiplos recursos capaz de uma actividade constante conseguiria a sobrevivência económica. A essa actividade se entregou de forma independente, defensor acérrimo das liberdades fundamentais. Ele próprio estigmatizava assim o profissional das letras: «Viver da pena é em penas viver». De facto, foi por raros igualada a actividade de Rocha Martins, como o testemunha a sua vasta bibliografia. Viveu a vida boémia e literária de fim-de-século e primeiras décadas do século XX, entre os nomes de maior ressonância, de quem era companheiro fiel: D. João da Câmara, Lopes Mendonça, Coelho de Carvalho, Gomes Leal, Marcelino Mesquita, Fialho de Almeida, Brito Camacho, Teixeira Gomes e Gualdino Gomes.
O seu romantismo e os seus ideais não admitiam razões que justificassem o crime político na pessoa do rei D. Carlos, tão pouco suportou a queda da Monarquia e do jovem rei D. Manuel. Todavia, o seu monarquismo seria mais de ordem sentimental do que convição política, pois o espírito crítico e a defesa da liberdade de imprensa encontraram-no sempre entre os primeiros combatentes, mantendo estreitas relações de amizade com grandes vultos da República. Depois da morte de D. Manuel (1932), abandonou a causa monárquica, que serviu sobretudo como historiador. Ele próprio explicou então a sua decisão: «Enquanto viveu, eu, amante da Liberdade, acima de tudo, não deixei de o reconhecer como soberano constitucional. Depois libertei-me. Ia procurando cumprir o que julgo a missão dos homens de letras. Não os compreendo sem o culto da Liberdade, devendo-lhe sacrifícios.» Desde então passou a escrever em jornais republicanos, tendo já anteriormente editado uma série de panfletos de crítica e discussão sobre a partidarização da República e os sinais de corrupção e decadência que esta ía testemunhando, publicados sob o título Fantoches/Bastidores da Política e dos Negócios, durante a década de 20. De parcearia com Mimon Anahory, fundou e dirigiu o hebdomadário ilustrado ABC (1920-1928), e o semanário Arquivo Nacional (1930-1939), repositório de história antiga e crónicas contemporâneas. Rocha Martins publicou a sua primeira obra em 1899, intitulada Os Párias, a que se seguiu o romance histórico Maria da Fonte, s/d.. Iniciou então uma série de romances históricos que granjearam popularidade: Bocage, Madre Paula, Mestre de Aviz, Rei Santo e Gomes Freire, este último na tentativa de ilibar o intemerato militar das acusações de adversário do liberalismo.
Empenhado nos ideais de Liberdade e Justiça social, inseparáveis da sua concepção de Democracia, participou activamente no movimento da Oposição Democrática em 1945 contra o regime de ditadura de Salazar. Nas colunas do diário República, dirigido então por Carvalhão Duarte, deu provas mais uma vez da sua aguerrida faceta de jornalista panfletário ganhando uma aura de popularidade invulgar. O seu nome tornou-se uma lenda viva, quando o República inseria os seus artigos contundentes. O jornal era então anunciado pelos ardinas de Lisboa com este pregão «Fala o Rocha!», seguido da observação «Está o Salazar à brocha!», dita em surdina, não fosse algum ouvido indiscreto escutá-la. Nesses dia o jornal era disputado pelo público esgotando-se rapidamente. A partir de meados da década de 30 escreveu também n’ O Primeiro de Janeiro colaboração que se veio a prolongar para além da sua morte, pois deixou mais de duas dezenas de artigos para publicação. O mérito dos seus trabalhos de investigação histórica impôs a sua entrada para a Academia das Ciências. Por expressa vontade testamentária a sua biblioteca transitou para a benemérita instituição A Voz do Operário (Lisboa).













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