Considerado um dos melhores livros escritos na década de quarenta, em plena Segunda Guerra e concretamente em plena ditadura salazarista, este romance marcou profundamente o seu tempo, não restringindo o seu sucesso apenas a determinada classe afecta à «literatura proletária», como podemos verificar por algumas frases que, sobre a sua experiência pessoal de leitura, anotou Vasco Pulido Valente «[…] A sua miséria e o seu abandono são de repente a sua liberdade e a liberdade pura alegria. […] Descalços, esfarrapados, famintos, com a mãe a morrer ou o pai desempregado, submetidos por uns tostões à inominável violação de um trabalho animal, estas crianças nunca pedem dó e nunca fazem dó. […] por não se darem à nossa piedade, o massacre da sua inocência surge como a ignomínia que é.»
De resto, se o ideologismo programático do neo-realismo se inscreve nas expectativas daqueles que consideravam a literatura como um instrumento de luta, a palavra «Partido» é omissa, enquanto tal, deste livro, particularmente por motivos óbvios de censura – mas igualmente, salvo raríssimas excepções, dos seus contos –, não deixando aquele, enquanto instituição, de estar implícito simbolicamente.
Ao espírito de rebeldia inscrito à flor de Esteiros sucede a génese de uma manifesta consciência de classe no romance de que ultimava a revisão quando a morte o surpreendeu prematuramente: Engrenagem. Este livro – que se destinaria (ainda segundo Costa Dias, fundamentado na correspondência trocada entre o escritor e Fernando Namora e Joaquim Namorado) a integrar a colecção coimbrã de «Novos Pensadores» – foi publicado em 1951 por iniciativa dos dois irmãos do autor, Alice Gomes e Jaime Pereira Gomes, e principalmente de Adolfo Casais Monteiro, seu cunhado.
É curioso notar que a primeira versão dactilografada deste romance, a partir dos dados obtidos na investigação do espólio literário do autor, teria o título de «Embate», ainda que, na última referência que o escritor lhe faz, volte a nomeá-lo como foi editado, e que para o mesmo Soeiro Pereira Gomes pensara no pseudónimo João Amargo. Digna de interesse é também a informação das dificuldades encontradas na fixação textual deste romance, constante da referida «Introdução» às Obras Completas, já que considerações técnicas, prendendo-se com a análise e a crítica genética do texto, determinam a escolha de uma versão inédita, dada à estampa em 1992, preterido o texto publicado 41 anos antes, em favor do seguinte argumento: «[…] Ignorando-se, em 1951, a existência de um manuscrito original […] foi, na altura, seguida a versão dactilografada […] única conhecida […] e que entretanto se perdeu. Hoje, porém, a reunião daquele espólio permitiu o aparecimento […] [de uma] cópia química da [2ª.] versão […]».
Foi esta versão, com emendas e profundas alterações manuscritas – quase integralmente do foro das motivações de ordem político-ideológicas, se considerarmos o exemplo escolhido sob a forma de fac simile –, que o responsável da edição escolheu como última, baseando-se no facto de tais modificações só terem sido possíveis como resultantes de uma experiência de cinco anos de clandestinidade, posteriores à data («Setembro 1944») que indica o final da 1ª. versão, publicada em 1951. Dessa luta organizada e clandestina nasceram muitos dos seus Contos Vermelhos, escritos entre 1945 e 1949 e publicados em 1951.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997







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