Poeta da chamada «medida nova», Sá de Miranda limava demoradamente o verso, apurava-o na forma e afinava-o na eufonia. Algumas das suas éclogas (Célia, Andrés, Nemoroso e Encantamento) estão repassadas de uma funda melancolia em que a natureza não é um cenário de fundo para as mágoas dos seus pastores, mas um significante passível de várias leituras no contexto dos poemas. A ambiguidade constitui um permanente desafio ao leitor, o que confere à sua poesia um insuspeitado cunho de modernidade. As suas Cartas em verso revelam a faceta do moralista e do patriota, atento à erosão dos valores castiços, que defende e considera essenciais à continuidade do carácter nacional.
Sá de Miranda é poeta bilingue, tal como o será Camões, escrevendo algumas das suas composições em castelhano. Só António Ferreira se impôs o patriotismo linguístico de escrever unicamente em português. Mas o bilinguismo é compreensível no espírito da ecumenicidade cultural que reinava então na Península Ibérica.
Como comediógrafo, Sá de Miranda produziu duas obras em prosa, Estrangeiros e Vilhalpandos, publicadas respectivamente em 1526 e 1559. Estas peças iniciam a comédia clássica em Portugal, mas falta-lhes o verdadeiro sentido de teatro, estando demasiado apegadas às formas estereotipadas dos modelos plautino e terenciano.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. I, Lisboa, 1989







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