Ângelo Cotinelli Telmo (Lisboa, 1897-Cascais, 1948), apogeu da geração que desbravou o Modernismo português. Cottinelli foi o talentoso arquiteto da Standard Eléctrica em Lisboa, arquiteto-chefe da exposição do Mundo Português, e escreveu e realizou A Canção de Lisboa, matriz das futuras fitas de comédia bairrista. Poeta, ator, designer, ilustrador, foi o verdadeiro pai da imprensa infanto-juvenil portuguesa, com a criação e direção do ABC-zinho, desde o seu início em 1921, até ao número 200 da segunda série, em 1929. O anacronismo histórico era recurso comum na infância publicitária de uma sociedade de consumo moderna, sedenta de mordomias domésticas que a ressaca da Primeira Guerra Mundial e o progresso tecnológico proporcionavam, mas a série de 30 quadros históricos dos chocolates SIC é de um humor negríssimo, quase absurdo. No número 50 da revista-mãe ABC, fazia-se a apologia desta abordagem publicitária reclamando a sua eficácia como sendo “10 vezes mais proveitosa do que anunciando por qualquer outro dos habituais meios”. A hilariante saga ilustrava alguns dos episódios mais sangrentos da gesta lusitana, começando nas cabeças sarracenas cortadas a esmo pelo rei Afonso Henriques e acabando numa dúvida existencial sobre a estátua equestre de D. José, não faltando pelo meio o episódio brejeiro de D. João V e da sua amante Madre Paula e uma partida em falso, com o episódio bíblico de Adão e Eva. O traço de Cottinelli era rápido, sintético, já presente nas suas pioneiras e frenéticas bandas desenhadas, como as Aventuras (e com razão) do Pirilau que Vendia Balões e A Grande Fita Americana, publicadas simultaneamente na revista ABC. Cottinelli Telmo não assinou todos os episódios da História do Chocolate. Emmérico Nunes, presença constante na primeira série da revista, desenharia pelo menos quatro dos quadros. A série terminou em 1923, ao número 40 do ABC-zinho. A heresia da História do Chocolate aproveitava os ventos libertários da I República, renegava o romantismo histórico da literatura e artes visuais portuguesas da época, e estava ainda longe da instrumentalização da História pelo Estado Novo, que teria uma presença obsessiva nas revistas infanto-juvenis e manuais escolares a partir de meados dos anos 30.













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