O fenómeno Pessoa não nascera, é claro, do nada. A sugestão, mais, a proclamação descarada, pelo menos em relação a Caeiro, de que «jamais vimos algo de parecido com ele», de tal modo ele é «pavorosamente novo», pode levar-nos à ideia de que Fernando Pessoa insinuava uma ruptura total com o passado. Não é verdade. Em mais de um escrito, o autor de Mensagem faz questão de dizer, às vezes com ênfase quase polémica, que nunca se avança, a não ser com um pé atrás e outro à frente. Almada pretenderá, com estardalhaço exibicionista, fazer tábua rasa de um passado que o incomoda. Pessoa, pelo contrário, anota, cuidadosamente, possíveis e até prováveis influências: Baudelaire, Cesário Verde, Edgar Poe, Antero, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Garrett (que teria desencadeado nele o desejo de escrever poesia em português), Milton, Keats, Shelley, Byron, Tennyson, Wordsworth, Carlyle, Camilo Pessanha, simbolistas franceses, António Nobre e até José Duro e António Correia de Oliveira. Curiosamonte, os românticos, para ele, contam (o modernismo inglês rejeitará, em bloco, a herança romântica…). Almada quer provocar, épater, no próprio momento em que Pessoa confidencia ao seu amigo Côrtes-Rodrigues: «Passou de mim a ambição grosseira de brilhar, e essa outra, grosseiríssima, e de um plebeismo artístico insuportável, de querer épater.» Por isso é curioso observar como se lança, na aventura modernista, este grupo hoterogéneo: Almada, Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor, António Ferro, de um lado, isto é, pessoas que «como almas, propriamente, não contam», do outro, Fernando Pessoa, brincando a contragosto, quase nauseado e sempre «gravemente atento à importância misteriosa de existir». Seja como for, junta-se aos amigos literários e funda, em 1915, a revista Orpheu, que vai, por um breve momento, agitar a poeira de uma cultura que adormece. Nisto tudo, como observará, com argúcia, Octavio Paz, «as suas aparições são isoladas e espasmódicas, golpes de mão para aterrorizar os quatro gatos da literatura oficial». O importante não será tanto este espasmódico aparecer em público, como o rio subterrâneo da criação solitária e obstinada: «Como todos os grandes preguiçosos», observa ainda Paz, «passa a vida a fazer catálogos de obras que nunca escreverá; e como acontece também aos abúlicos, quando são apaixonados e imaginativos, para não rebentar, para não enlouquecer, quase às escondidas, à margem dos seus grandes projectos, escreve todos os dias um poema, um artigo, uma reflexão. Dispersão e tensão.» Preguiçoso, talvez, mas de uma espécie peculiar; abúlico, sem dúvida, mas obstinado também e administrador meticuloso da própria glória presente e a haver, como magistralmente demonstrou David Mourão-Ferreira ao fazer o mapa revelador das estratégias de publicação seguidas pelo autor de Mensagem. Na Athena, na Contemporânea, enfim, na Presença (que o acolhe e lhe dá tratamento de Mestre), Fernando Pessoa vai colocando o melhor da sua mercadoria poética e outra, assim assegurando a letra de forma ao mais excelso do que importa salvar. Em vida, à parte os poemas ingleses, dá forma de livro apenas à Mensagem, com que concorre a um prémio do Secretariado da Propaganda Nacional, com êxito relativo (um 2°. prémio). Conta, nos dois anos que, julga, lhe restam de vida, deixar organizados os manuscritos, para publicação. Enganara-se, contudo, na elaboração do seu próprio horóscopo (versão de Raul Leal), e a ampulheta chegara ao fim: os manuscritos iam ficar no baú, preservados mas não preparados para publicação imediata, quando o seu autor baixou, subitamente, ao Hospital de S. Luís dos Franceses, no dia 29 de Novembro de 1935, aí vindo a falecer no dia seguinte.
A sua obra, cuja publicação sistemática foi iniciada em 1942 pela Ática, sob a direcção de João Gaspar Simões, encontra-se ainda hoje, apesar da volumosa parte já dada à luz, não totalmente revelada. Por outro lado, sob a direcção de Ivo Castro, procede-se finalmente à realização cuidadosa de uma edição crítica – a melhor homenagem, no fim de contas, à grandeza do poeta.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994








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