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Quando se fala de José Régio, pensa-se em geral no poeta, esquecendo-se o ficcionista que foi, empenhadamente, ao longo de toda a sua vida, com obras tão assinaláveis e mesmo notáveis como são o Jogo da Cabra Cega (1934) ou as admiráveis Histórias de Mulheres (1946), sem esquecer esse romance poético e profundamente embrenhado na temática mais funda e obsessiva do seu autor, que é O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), ou a soma romanesca, A Velha Casa, de que deixou completos 5 volumes e o começo de um sexto (que provavelmente não seria o último) – longo romance de uma aprendizagem, quase uma autobiografia romanceada e essencial para se estudar, por exemplo, o que foi o ambiente de Coimbra, no tempo da Presença.

Igualmente importantes são as facetas do dramaturgo, dos mais impressionantes da história do nosso teatro (desde Jacob e o Anjo, 1940, passando por Benilde ou a Virgem-Mãe, 1947, e El-Rei Sebastião, 1949). Nestas peças retoma temas de sempre, tais o da morte e ressurreição (em seu valor simbólico), o sofrimento como valor de redenção, a auto-superação pela lenta aceitação – com sofrimento – de valores mais altos a que, apesar de tudo, se resiste.

A obra de Régio admite várias leituras de uma grande riqueza, uma das quais pode muito bem ser a de um eloquente e dilacerado relato das dificuldades com que o convívio humano se depara: convívio do homem com os outros homens, consigo próprio e com um transcendente qualquer.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997

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