Em 1969 foi publicada a tradução, em colaboração com Natália Correia, de Arte de Amar, de Ovídio, obra que também prefaciou. Foi então frequente a actividade de conferencista, contando-se Valery Larbaud, Teixeira Gomes, Vitorino Nemésio, Thomas Mann, Rainer Maria Rilke, Cecília Meireles, Fernando Pessoa e os poetas da Presença entre os autores que mais atentamente estudou, num gosto de intervir cultural e socialmente nem sempre pacífico para o cordato professor-poeta: subscreveu em 1966 o texto de apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, e, pouco antes de Abril de 1974, depôs a favor de Maria Teresa Horta no processo que lhe foi movido pela publicação das Novas Cartas Portuguesas.
No âmbito da actividade de divulgador, é justo realçar ainda a colaboração dada a Portugal, a Terra e o Homem: Antologia de Textos de Escritores do Século XX (de que foi responsável pelas 1ª., 2ª. e 3ª. séries do 2º. volume, 1979-81) e a orientação, preocupada com um grande sentido pedagógico, que a partir de 1984 deu ao Boletim Cultural do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, Serviço de que foi director a partir de 1981.
Em 1974-75 foi director do jornal A Capital e logo a seguir director-adjunto de O Dia, sob a direcção de Vitorino Nemésio; entre 1984 e 1986 foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores, entre 1984 e 1992 foi vice-presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires e, em 1991, presidente do Pen Club Português.
Os anos oitenta e noventa são de intensa actividade editorial e os que mais o premeiam: a As Quatro Estações foi em 1980 atribuído o Prémio da Crítica da Association Internationale des Critiques Littéraires; a Um Amor Feliz, que vai na décima segunda edição (em 1997), foram em 1986 atribuídos o Prémio de Narrativa do Pen Club Português, o Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus (ex-aequo com Mário de Carvalho), o Prémio de Ficção Município de Lisboa e o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores; em 1988, Nos Passos de Pessoa recebe o Prémio Jacinto do Prado Coelho, e a Obra Poética: 1948-1988 recebe o Grande Prémio Inasset de Poesia. Antes disso, já em 1954 tinha sido distinguido com o Prémio de Poesia Delfim Guimarães pelo livro Tempestade de Verão, em 1960 com o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, por Gaivotas em Terra, e em 1972 com o Prémio Nacional de Poesia pelo Cancioneiro de Natal. Em 1976 foi distinguido no Brasil com a Grã Cruz da Ordem de Rio Branco. É já muito doente que em 1996 é condecorado pelo primeiro-ministro português com a Grã-Cruz de Santiago de Espada.
Quando em 1950 escreve A Secreta Viagem, é para a mesma reivindicação de autenticidade que é teorizada na Távola Redonda, e que se baseia na revalorização de um amplo conceito de lirismo, que David Mourão-Ferreira aponta, como caminho alternativo a certa imediatez da inspiração e ao impuro aproveitamento da poesia para fins sociais (cf. «Notícia sobre a Távola Redonda», in Estrada Larga, 3, Porto, s.d., p. 392), que eram a consequência lógica de toda a atitude estética do neo-realismo. Pratica então – e nunca mais o abandonará – um ideal de depuração que, sem o divorciar completamente do ser social que também não abdica de ser, dá consistência ao mistério poético não apenas como revelação mas como celebração. No que, embora por vozes diferentes, é o mesmo eco clássico de Sophia que em certo, assumido intimismo se faz ouvir, com a diferença, que simultaneamente os une e individualiza na História da Literatura, de que em David a consciência técnica dos procedimentos estilísticos é um dado e de que, mais reflexiva, mais dispersa e menos contemplativa do que inquieta, esta é uma poesia que frequentemente se interroga.
Não é pois de estranhar que ao poeta e ficcionista seja presente a aguda consciência crítica – ainda de reminiscências presencistas – que nos ensaios se faz teoria da literatura (e não terá sido ocasional o seu interesse pela Presença), nas novelas desencanto ou sarcasmo, nos poemas uma muitas vezes enternecida ironia, quando não auto-ironia, num trabalho que oscila entre o instintivo cuidado e a reflexão mais culta, mais elaborada. E tudo isto atravessa Um Amor Feliz como se o romance fosse para o A. a síntese de todo o seu labor. Perpassa nuns e noutros uma espécie de libelo com o tempo, nas primeiras obras apenas aflorado, em Os Ramos Os Remos e em Um Amor Feliz já confronto aberto, que é também confronto com o corpo e com a própria cadência dos versos enquanto corpos: Digo remos vejo sombra/ Chamo ramos ao que é vivo. Como quem com o amor, com o tempo e com a morte mantém um caso.
Lisboa, que também é objecto do seu estudo enquanto tema literário, designadamente em ensaios a propósito de Eça de Queirós e Gomes Leal (cf. Tópicos de Crítica e História Literária), numa antologia intitulada Saudades de Lisboa e nas novelas de Duas Histórias de Lisboa, contribuiu muito para certa divulgação popular da poesia de David, ao constituir-se como letra de fados, alguns cantados por Amália, popularidade para que também concorreu a adaptação cinematográfica de duas novelas do livro Gaivotas em Terra, «Agora o Fado Corrido» (realização de Jorge Brun do Canto) e «E aos Costumes Disse Nada» (este filme, de José Fonseca e Costa, tem o título «Sem Sombra de Pecado»), bem como de Um Amor Feliz a filme televisivo, em que, aliás, também participa como actor.
Ao publicar nos últimos anos de vida recolhas poéticas de inequívoca tematização do erotismo (O Corpo Iluminado e Música de Cama), David Mourão-Ferreira expôs-se, «entre o estuar dos sentidos e o desencanto do nada» (Urbano Tavares Rodrigues, «Don Juan e o donjuanismo: na literatura portuguesa», in Dicionário de Literatura dirigido por Jacinto do Prado Coelho, 1978), a análises injustamente redutoras da sua obra poética. E no entanto parece tão fácil reconhecer que, nessa escrita, ora lúdica, ora dramática, Das sílabas a espátula/ começa pouco a pouco/ a modelar-te em alma/ o que era apenas corpo/ [ …] e O que era apenas alma/ volve-se agora corpo («Corpoema»), tão insignificante é do ponto de vista poético a diferença.
Um Monumento de Palavras (1996) é simultaneamente reconstituição de um percurso íntimo e testamento poético, numa curiosa cronologia sentimental e poética que, já elegíaca, mas lucida, tranquilamente se enuncia e antologicamente se organiza em disco pela voz do Poeta.
Poucas vezes um escritor terá visto a sua morte tão publicamente anunciada, tão mediatica, mas sinceramente, chorada.







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