Toda a poesia de Bocage se nutre das suas vicissitudes biográficas. O amor e o erotismo, o ódio e a raiva das ofensas sofridas ou imaginadas, vibram nos seus versos com a intensidade do excesso, que a forma apurada e o rigor verbal dominam, tornando mais impressionante o seu efeito estético. O poeta cultiva com igual desenvoltura todos os géneros, desde o soneto de fina conceituação petrarquista ao verso fescenino, servindo-se ainda dos códigos de um discurso classicizante, onde prorrompe já um vigoroso individualismo em revolta com as normas e os tabus da sociedade vigente. A atitude do poeta contra a tirania e o despotismo não implica, no entanto, a aceitação do radicalismo da Revolução Francesa, a que se opõe, nem a via do libertino, que o seduziu, esmoreceu nele as suas crenças e convicções de católico. Bocage foi um ser contraditório, que soube viver intensamente na sua poesia as suas contradições existenciais. O seu fascínio pela morte e a expressão da sua extrema emotividade fazem dele um precursor do Romantismo, cujos desbordamentos evitou no apego à contenção clássica, impondo-se como um artífice do verso, o chamado elmanismo, que tanto atrairá os parnasianos portugueses e brasileiros.
Foi um tradutor rigoroso do latim e do francês, vertendo para o nosso idioma textos de Ovídio, Museu, Lacroix, Voltaire, Delille, Pierre Rousseau, entre outros.
Centro de Documentação de Autores Portugueses
04/2004






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