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Era oriundo de família vilã. Em 1418 era guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo, cargo que ocupou até 1454. Foi designado por D. Duarte para ser cronista do Reino, certamente a partir de 1434, mas possivelmente já desde 1419, função de que se desempenhou escrevendo as Crónicas de D. Pedro ID. Fernando e D. João I, e talvez o que chegou até nós sob a forma do que parece ser um rascunho das Crónicas dos reis anteriores.

Escrivão dos livros de D. João I e do infante D. Duarte, secretário do infante D. Fernando e tabelião de ofício, a sua obra como historiador beneficiou da experiência obtida em tais actividades e das facilidades de acesso a documentos que elas lhe proporcionavam. Uma cultura – que hoje chamaríamos «literária» – considerável ajudou-o a tirar o melhor partido dessas circunstâncias.

Três das suas características mais notáveis e inovadoras são: a noção da responsabilidade do historiador no estabelecimento da verdade e o consequente método de consulta exaustiva e aproveitamento crítico de documentos e outras fontes, procurando manter-se isento de favoritismos; a preocupação de esclarecer as diversas inter-relações existentes entre os elementos que formam a realidade; e a compreensão da importância dos factores psicológicos nos fenómenos históricos, que o leva a analisar com minúcia tanto os caracteres do mestre de Avis e de Leonor Teles como os comportamentos populares em grandes e pequenos conjuntos.

O autor da Crónica de D. João I consegue destacar, conscientes ou fortuitos, motivos, reacções e intenções que são preciosos indícios do quadro social, económico e cultural que podemos ter da época, para a qual a obra de Fernão Lopes permanece como a principal fonte de conhecimento.

Se, em Fernão Lopes, importa assinalar o valor insigne do historiador num período particularmente rico em acontecimentos dramáticos e intensamente visuais, não importa menos sublinhar a originalidade e grandeza do escritor: herdeiro de uma rica tradição medieval de romances e crónicas, Fernão Lopes, de modo nenhum desprezando o passado, introduz na nossa literatura uma escrita inovadora, fortemente audaz e metafórica, capaz, a um tempo, de nos fazer convir a movimentação cinematográfica de multidões em transe de modificar os destinos de um país ameaçado e de nos pintar, com uma minúcia reveladora, os traços individuais dos comparsas de gabarito mais variado.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. I, Lisboa, 1989

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