Historiador, teórico do socialismo, economista e prosador admirável, Oliveira Martins teve uma juventude impecuniosa e difícil.
Nascido de uma família burguesa de fracos recursos, ficou órfão de pai aos 12 anos. O pai era funcionário público e pequeno proprietário, e a mãe; embora oriunda de gente abastada, recebera apenas uma pequena herança; pois vigorava então a lei do morgadio. Aos 15 anos, Oliveira Martins teve de interromper os seus estudos no Liceu Central de Lisboa e na Academia de Belas-Artes, para acorrer ao sustento da mãe e de cinco irmãos menores, empregando-se numa casa comercial de 1860 a 1870, ano em que esta fechou. Consegue, porém, obter o lugar de administrador nas minas de Santa Eufémia, em Córdova, partindo para Espanha, já casado, em Agosto de 1870.
Embora ocupado durante o dia com os seus deveres profissionais, Oliveira Martins dedicava desde muito cedo os serões ao estudo, lendo autores nacionais e estrangeiros. Colabora na imprensa da época, onde defende os ideais da justiça social, representados na doutrinação republicana e socialista. Nesse mesmo ano de 1870 entra para o grupo do Cenáculo, onde convive com Antero de Quental.
Imbuído ainda do socialismo de cariz proudhoniano, publica a Teoria do Socialismo (1872) e O Socialismo em Portugal (1873), que mereceram a Antero os maiores louvores.
A sua situação económica não é ainda desafogada e, quando se lhe oferece a oportunidade de trabalhar na companhia construtora do caminho-de-ferro do Porto à Póvoa do Varzim, Oliveira Martins abandona a Espanha e fixa-se no Porto. Em Maio de 1874 já está ao serviço da companhia, onde tomará depois conta da sua direcção técnica. Inicia-se, então, um período liberto de quaisquer preocupações materiais.
Instalado na bonita casa de Águas Férreas, entrega-se com afinco ao trabalho intelectual. Publica o opúsculo A Reorganização do Banco de Portugal (1877) e uma Memória sobre a Circulação Fiduciária (1877), premiada num concurso da Academia das Ciências de Lisboa. Pouco tempo depois é nomeado sócio correspondente desta instituição.
Após tentativas malogradas para a sua eleição como deputado pelo Partido Socialista e incompatibilizado, tal como Antero, com os republicanos, O. M. desiste da intervenção política e concebe um plano de trabalho grandioso, destinado a educar o cidadão português. Lança, assim, a «Biblioteca das Ciências Sociais», inaugurada com a História da Civilização Ibérica (1879) e terminada com a História da República Romana (1885), que ficou incompleta. Mas, nos seis anos que vão do primeiro ao último volume, o escritor produz, a um ritmo impressionante, a História de Portugal (1879), O Brasil e as Colónias Portuguesas (1880), Elementos de Antropologia (1880), Portugal Contemporâneo (1881), As Raças Humanas e a Civilização Primitiva (1881), Sistema dos Mitos Religiosos (1882), Quadro das Instituições Primitivas (1883), O Regime das Riquezas (1883) e as Tábuas de Cronologia e de Geografia Histórica (1884).
Tal é a sua capacidade criadora que dentro de dois anos consegue dar a lume quatro volumes. Já antes de iniciar a «Biblioteca» dera prova dessa operosidade, pois em 1878, além da Memória sobre a Circulação Fiduciária, publicara O Helenismo e a Civilização Cristã e ainda as Eleições.
Uma obra de tal magnitude, produzida em tão curto espaço de tempo, não pode deixar de conter imprecisões e erros de facto. Mas a qualidade mestra destes escritos é o poder de síntese e de integração teórica de uma vasta bibliografia dentro de um sistema de pensamento coerente e lúcido. A sua obra suscita admiração e algumas invejas, que se colam a essas falhas de informação para a diminuir no seu conjunto.
Em 1885 tenta novamente a política, ingressando no Partido Progressista, ao qual fora levado pela estima e admiração que nutria pelo seu chefe, Anselmo José Braamcamp. O. Martins entende que é esta a única via que se lhe oferece para intervir decisivamente na vida nacional. A morte de Braamcamp nesse mesmo ano deixa-o profundamente abalado, mas continua a militar no partido.
Em 1886 é deputado pelo círculo de Viana do Castelo e em 1887 é eleito pelo Porto. O seu Projecto de Lei sobre o Fomento Rural, apresentado, então à Câmara, cai completamente no esquecimento. Vivendo em Lisboa, passa a dirigir O Repórter, desde Maio de 1888, onde procura criar na opinião pública uma corrente favorável a um projecto de reforma, destinado a tirar o País do seu endémico atraso económico. Em 1889 é nomeado administrador da Companhia de Tabacos Régia, com uma remuneração condigna. Mas o emprego não dura muito tempo. Em 1891 a Companhia é desnacionalizada pelo Governo e entregue ao banqueiro Burnay.
Nesse mesmo ano, O. Martins dera a lume Os Filhos de D. João I e Camões – Os Lusíadas e a Renascença em Portugal, além de Portugal em África. A saúde ressentia-se, porém, do esforço imenso que despendera na sua obra e na vida prática. À doença, que o consumia e se supõe ser a tuberculose, juntava-se agora, mais uma vez, preocupações de natureza económica. É por essa altura, em 17 de Janeiro de 1892, que o chefe do partido o chama para sobraçar a pasta da Fazenda. Ora, o País encontrava-se à beira da bancarrota. E as medidas adoptadas por O. Martins são consideradas demasiado drásticas e impopulares. Elas feriam ainda prerrogativas das facções políticas. Vitíma de uma intriga, o escritor pede a demissão e, em 27 de Maio, sai de um governo que durara apenas quatro meses.
Após breve visita a Inglaterra, donde trouxe a Inglaterra de Hoje (1892), é eleito deputado pelo Porto, nesse mesmo ano. A 6 e 7 de Fevereiro de 1893 pronuncia na Câmara dos Deputados um discurso em que rebate as injustiças de que havia sido alvo na sua gerência do Ministério da Fazenda, onde conseguira criar receitas e fazer economias.
Um novo projecto literário animava então Oliveira Martins: a História do Tempo de Avis. Iniciada com Os Filhos de D. João I (1891), o escritor receava não ter forças suficientes para a levar a cabo. Em 1893 publica A Vida de Nun’Álvares. Este friso de biografias procurava revelar, através do estudo das grandes personalidades, a acção política da dinastia de Avis. Todavia, em 1894, o escritor sente-se cada vez pior. Havia começado a redigir O Príncipe Perfeito. E, no intuito de se documentar, faz ainda uma viagem a Espanha. De regresso, a sua situação agrava-se. Profundamente debilitado, ditava a sua mulher as páginas da que seria a sua última obra e que ficaria incompleta, tendo sido publicada dois anos depois de morrer.
A obra de Oliveira Martins, na sua diversidade e rica complexidade, está ainda por estudar. Inicialmente influenciado pelo socialismo proudhoniano, o seu pensamento evoluiu no sentido do socialismo de cátedra, que acreditava numa reforma social imposta de cima, graças à autoridade de um chefe ou césar prestigiado. A sua ignorância da cena política alemã e do que aí se passara nas relações havidas entre os socialistas de cátedra e o Kaiser alimentava as suas ilusões.
Imbuído das doutrinas evolucionistas do tempo, da teoria de Taine, O. Martins traçou os grandes quadros da história, dando particular atenção ao enquadramento geográfico e aos factores étnicos na formação dos povos. Concebendo a sociedade como um organismo, na esteira de H. Spencer, e a história como um drama, ele captou com grande lucidez os móbiles da acção política e os factores económicos e sociológicos que a condicionam. O que, para a época, era grande novidade.
A crematística, que antecipa a estatística, a economia e a nomologia, que corresponde à sociologia, são ciências que ele utiliza sabiamente, ao explorar brilhantes hipóteses de trabalho. Mas a sua imaginação criadora supria os hiatos da documentação e apresentava, quer através dos seus admiráveis retratos, quer através de quadros de multidões ou de grupos, uma visão muito persuasiva do fenómeno histórico, em que a arte, não raro, se substiui à ciência.
Algumas das suas intuições são muito penetrantes e reveladoras do carácter português. O seu evolucionismo histórico não se libertou, porém, da ideia de «força», ou impulsão de raiz metafísica, herdada dos teóricos germânicos, nem do falso conceito de raça, que teve uma influência nefasta no seu pensamento sociológico e político.









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