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Nas suas páginas, o escritor, encarnação do velho anarquista, manifesta a sua oposição franca a qualquer instituição que prive o indivíduo da liberdade. É esta atitude que explica a sua indignação perante os falhanços socio-económicos dos sucessivos governos do após 25 de Abril ou a crítica à inconsciência e à corrupção instaladas na classe política, a sua firme oposição à precipitada adesão à Comunidade Europeia, emoldurada pelos lúcidos avisos premonitórios da irresponsabilidade oficial na assinatura do tratado de Maastricht – verdadeiro atentado contra a independência da nação e o último combate que enfrentou a sua rebeldia. Em paralelo manifesta-se o ensaísmo literário e o artista que, cumprindo o preceito socrático, empreende um caminho de autognose expressado em prosa e versos.

Depois de 1981, em que lhe é atribuído o «Prémio Montaigne» da Fundação Alemã F.V.S., recebe o «Camões» (1989, na primeira convocatória), o «Vida Literária» da A.P.E. (também na sua primeira convocatória, 1992). Nesta mesma data é designado Personalidade do Ano 1991 pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal e é-lhe outorgado o «Prémio de Literatura Écureuil», do Salão do Livro de Bordéus.

A partir de 1986, em que foi detectada uma doença incurável num corpo já combalido e foi submetido a mais outra intervenção cirúrgica, passou períodos internado no Hospital da Universidade e no I.P.O. de Coimbra, onde acabaria por entregar, impoluto, o seu «branco penacho de poeta» numa manhã invernal, a de 17 de Janeiro de 1995, com 87 anos. Foi nestes locais que redigiu, em parte, o vol. XVI do Diário, corajoso livro viril de adeus e exaltação do acto de viver, pautado por uma ironia sadia e sempre iluminado pela esperança no Homem, valores que levaram a Associação Internacional de Críticos Literários a laureá-lo em 1994.

O seu multitudinário funeral – de Coimbra ao cemitério da sua terra natal – foi clara expressão da dor do povo, enquanto a imprensa nacional e estrangeira, consciente da importância histórica da perda, divulgou a notícia da morte, acompanhada de depoimentos e comentários bibliográficos.

A publicação do Cântico em Honra de Miguel Torga, em 1996, supõe a continuidade da admiração, agora expressa por 85 poetas contemporâneos portugueses. Está traduzido em alemão, castelhano, chinês, francês, inglês, japonês, norueguês, polaco, romeno, servo-croata e sueco.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997

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