Estreou-se com Os Caminheiros e Outros Contos (1949) e Histórias de Amor (1952> Num diálogo com vários autores europeus, com os quais vai dialogando regularmente, como é o caso de Elio Vittorini (Eunice Cabral, José Cardoso Pires, Centro Virtual Camões, pág. eletrónica), Cardoso Pires publica nos finais dos anos 50 e 60 O Anjo Ancorado (1958), Cartilha do Marialva ou das Negações Libertinas (1960), Jogos de Azar (1963), O Hóspede de Job (1963) e O Delfim (1968). O Anjo Ancorado “dá conta dessa realidade modernizada, inscrita na sociedade portuguesa, mesmo no tempo de um regime opressor, mas é vivida apenas por um burguesia muito restrita numericamente, letrada, com intenções políticas democráticas mas inerte, amorfa e envergonhadamente privilegiada em contraste com a maioria da população, que sobrevive numa pobreza no limite da sobrevivência mais primária.”. (Eunice Cabral, José Cardoso Pires, Centro Virtual Camões, pág. eletrónica) O Hóspede de Job, “romance que representa também esta divisão nítida, já surgida no romance anterior, narra a história de uma deambulação de um Job que alberga involuntariamente em sua casa o hóspede que o irá mutilar, reduzindo-o a um pedinte de feira.”. (Eunice Cabral, José Cardoso Pires, Centro Virtual Camões, pág. eletrónica), Cartilha do Marialva ou das Negações Libertinas “é um ensaio sobre a via errada, seguida por Portugal, que optou pelo irracionalismo e pelo imobilismo, atualizados e enaltecidos pelo regime salazarista. A figura do marialva, privilegiado em nome da sua família e dos seus haveres patrimoniais, encarna a espécie de provincianismo português que o autor caracteriza em traços negros e caricaturais de modo a fustigá-lo para melhor o erradicar do país.”. (Eunice Cabral, José Cardoso Pires, Centro Virtual Camões, pág. eletrónica) Jogos de Azar “é uma recolha de entre os primeiros contos (publicados nos dois primeiros livros), escolhidos pelo autor sob a égide da figura do «desocupado», sinónimo, na gramática do autor, do cidadão português, destituído de meios para viver.”. (Eunice Cabral, José Cardoso Pires, Centro Virtual Camões, pág. eletrónica) No romance O Delfim, geralmente considerado a sua obra-prima, “o autor aprimora a narrativa focalizada a partir de um olhar “forasteiro”, aparentemente descomprometido com uma realidade percebida como anacrónica. A Gafeira, aldeia inexistente, inventada a partir de tantas outras portuguesas, é o local de eleição e objeto de um determinado modo de ver e de interpretar o Portugal marcelista, a seis anos de uma mudança drástica. O centro do relato diz respeito a um crime, que consubstancia o estilhaçar de um mundo que se apresenta como perfeito e imóvel, mas que começa a ser infiltrado do exterior por mudanças modernas que o irão alterar para sempre. Esta tensão é narrada por um discurso perspetivístico, distanciado, sendo, então, impossível o registo narrativo de tipo realista. Mesmo sendo um romance profundamente experimentalista, em articulação com as vanguardas europeias desta década, mantém, na sua urdidura, a noção de “documento humano” pela necessidade de traçar, com um rigor irónico, paródico, por vezes “hiper-realista”, as coordenadas portuguesas num período de profundas mudanças. Tendo sido recebido até 1974 como romance neorrealista, tem despertado um interesse crescente como narrativa pós-modernista. Pode efetivamente ser lido como o primeiro romance português no qual confluem as principais linguagens estéticas norteadoras do futuro pós-modernismo português devido à mistura de géneros, à polifonia, à fragmentação narrativa e à metaficção.” (Eunice Cabral, José Cardoso Pires, Centro Virtual Camões, pág. eletrónica)
CDAP/Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998










Avaliações
Ainda não existem avaliações.