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Um novo projecto literário animava então Oliveira Martins: a História do Tempo de Avis. Iniciada com Os Filhos de D. João I (1891), o escritor receava não ter forças suficientes para a levar a cabo. Em 1893 publica A Vida de Nun’Álvares. Este friso de biografias procurava revelar, através do estudo das grandes personalidades, a acção política da dinastia de Avis. Todavia, em 1894, o escritor sente-se cada vez pior. Havia começado a redigir O Príncipe Perfeito. E, no intuito de se documentar, faz ainda uma viagem a Espanha. De regresso, a sua situação agrava-se. Profundamente debilitado, ditava a sua mulher as páginas da que seria a sua última obra e que ficaria incompleta, tendo sido publicada dois anos depois de morrer.

A obra de Oliveira Martins, na sua diversidade e rica complexidade, está ainda por estudar. Inicialmente influenciado pelo socialismo proudhoniano, o seu pensamento evoluiu no sentido do socialismo de cátedra, que acreditava numa reforma social imposta de cima, graças à autoridade de um chefe ou césar prestigiado. A sua ignorância da cena política alemã e do que aí se passara nas relações havidas entre os socialistas de cátedra e o Kaiser alimentava as suas ilusões.

Imbuído das doutrinas evolucionistas do tempo, da teoria de Taine, O. Martins traçou os grandes quadros da história, dando particular atenção ao enquadramento geográfico e aos factores étnicos na formação dos povos. Concebendo a sociedade como um organismo, na esteira de H. Spencer, e a história como um drama, ele captou com grande lucidez os móbiles da acção política e os factores económicos e sociológicos que a condicionam. O que, para a época, era grande novidade.

A crematística, que antecipa a estatística, a economia e a nomologia, que corresponde à sociologia, são ciências que ele utiliza sabiamente, ao explorar brilhantes hipóteses de trabalho. Mas a sua imaginação criadora supria os hiatos da documentação e apresentava, quer através dos seus admiráveis retratos, quer através de quadros de multidões ou de grupos, uma visão muito persuasiva do fenómeno histórico, em que a arte, não raro, se substiui à ciência.

Algumas das suas intuições são muito penetrantes e reveladoras do carácter português. O seu evolucionismo histórico não se libertou, porém, da ideia de «força», ou impulsão de raiz metafísica, herdada dos teóricos germânicos, nem do falso conceito de raça, que teve uma influência nefasta no seu pensamento sociológico e político.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. II, Lisboa, 1990

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