3
O seu carrinho

Durante os mais de trinta anos que residiu no Alentejo, Régio produziu uma obra de vulto, em quantidade e qualidade, nos domínios já indicados, a que teria que se acrescentar a sua intensa actividade jornalística, de que resultou um imenso acervo de críticas, cartas-abertas, crónicas, textos de polémica, de que só uma ínfima parte se encontra recolhida em livro. Como já algures foi dito, José Régio, «resolvendo, na sua obra, como fazem todos os artistas autênticos, a antiga e “longa querela” a que aludia Apollinaire, entre a tradição e a invenção, entre a ordem e a aventura, entre o particular e o universal – […] deixa-nos um exemplo notabilíssimo de integridade artística e humana, de coragem criadora e cívica, de um percurso simultaneamente autónomo e integrado, a par de um exemplo não menos irradiante de inteligência crítica a um tempo cautelosa e finalmente perscrutadora, que ficarão como a melhor garantia da autenticidade do seu amor a uma literatura que profundamente conheceu e acrescentou.»

Quando se fala de José Régio, pensa-se em geral no poeta, esquecendo-se o ficcionista que foi, empenhadamente, ao longo de toda a sua vida, com obras tão assinaláveis e mesmo notáveis como são o Jogo da Cabra Cega (1934) ou as admiráveis Histórias de Mulheres (1946), sem esquecer esse romance poético e profundamente embrenhado na temática mais funda e obsessiva do seu autor, que é O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), ou a soma romanesca, A Velha Casa, de que deixou completos 5 volumes e o começo de um sexto (que provavelmente não seria o último) – longo romance de uma aprendizagem, quase uma autobiografia romanceada e essencial para se estudar, por exemplo, o que foi o ambiente de Coimbra, no tempo da Presença.

Igualmente importantes são as facetas do dramaturgo, dos mais impressionantes da história do nosso teatro (desde Jacob e o Anjo, 1940, passando por Benilde ou a Virgem-Mãe, 1947, e El-Rei Sebastião, 1949). Nestas peças retoma temas de sempre, tais o da morte e ressurreição (em seu valor simbólico), o sofrimento como valor de redenção, a auto-superação pela lenta aceitação – com sofrimento – de valores mais altos a que, apesar de tudo, se resiste.

A obra de Régio admite várias leituras de uma grande riqueza, uma das quais pode muito bem ser a de um eloquente e dilacerado relato das dificuldades com que o convívio humano se depara: convívio do homem com os outros homens, consigo próprio e com um transcendente qualquer.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 199

Avaliações

Ainda não existem avaliações.

Seja o primeiro a avaliar “BENILDE OU A VIRGEM-MÃE JOSÉ RÉGIO”

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *