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Humanista português de renome internacional, latinista com alto grau de competência técnica, poeta, prosador, músico e «arqueólogo», foi preceptor de príncipes, privou e correspondeu-se com alguns dos mais avançados espíritos do seu tempo, com o Papa e com algumas das principais cortes da Europa. Manteve durante toda a sua vida uma intensa actividade literária e deixou uma vastíssima bibliografia de mais de cem obras e peças, entre as quais se contam poemas, opúsculos, odes, cartas, relatos da vida de príncipes e de santos, orações, discursos, elogios, epigramas e corografia histórica.

Com apenas oito anos de idade foi aluno de Gramática do célebre latinista Estevão Cavaleiro, manifestando desde cedo inclinação para as letras clássicas. Tendo entrado bastante novo para a Ordem de S. Domingos de Évora, cedo ainda começou o seu périplo pelas mais afamadas Universidades da Europa: em Alcalá de Henares (1513-17) teve por mestre Nebrija; em Salamanca, estudou Artes (incluindo latim, grego e hebraico) e Teologia e ouviu Ayres Barbosa e Nebrija; depois Paris, Marselha e Aix-en-Provence, onde recebeu as ordens sacras de Sub-Diácono e Diácono; e Lovaina (1529), «Meca» do Humanismo, onde se licenciou em Teologia. Nesta última cidade, movia-se no círculo de amigos de Erasmo, entre os quais se contava Nicolau Clenardo que, mais tarde, em 1534, persuadiria a vir de Salamanca para Portugal, por incumbência de D. João III, para ser mentor do futuro Cardeal-Rei, o Infante D. Henrique. Nesta altura, Erasmo ainda não tinha sido condenado por heresia pela Igreja Católica, e a Europa respirava ideias frescas e reformistas, partilhadas e divulgadas por Resende.

Em 1531, já prestigiado com fama de erudito, passa a residir na casa do embaixador de Portugal na Flandres, D. Pedro de Mascarenhas, bem perto da corte de Carlos V em Bruxelas. Um ano depois acompanha ambos, como soldado voluntário, na campanha contra o cerco turco a Viena, ao que segue para Bolonha, junto do cortejo que acompanhou o imperador de visita ao Papa Clemente VII.

Em 1533 regressa a Portugal, a Évora, onde está instalado o paço real, dividindo-se entre o Convento de S. Domingos, onde tomara hábito, e a educação dos infantes D. Henrique, D. Afonso, D. Duarte e mesmo de D. João III. No início das aulas da Universidade de Lisboa, em 1534, pronuncia a oração de sapiência, a célebre Oratio pro rostris, ocasião para expôr ideias sobre o atraso da cultura portuguesa, onde defende a necessidade do ensino do grego, da gramática, da retórica e da dialética como fundamento das restantes matérias. Este «grito de guerra do Humanismo contra a Escolástica em Portugal», citando Lopes e Saraiva na História da Literatura Portuguesa, preconiza que a formação intelectual se deveria impôr aos privilégios de nascimento. Mas a vida na corte desgosta-o e em De Vita Aulica poetas ibi iacere («sobre a vida na corte onde os poetas vegetam», 1535), invectiva contra a futilidade, a intriga e a poesia subjugada ao Direito. Dedica-se ao aprofundamento e propagação da cultura clássica, como erasmista convicto mas moderado e consciente.

Foi Mestre no Colégio Real das Artes, em Coimbra (1551), e orador evangélico do Cardeal-Infante D. Henrique, que estabeleceu a Inquisição em Portugal; em 1555 abre uma escola pública em Évora que não durará mais de quatro anos, impedida de concorrência à recém-criada Universidade de Évora. Entre os seus discípulos posteriormente famosos contam-se Aquiles Estaço, Francisco d’Holanda e Fernão d’Oliveira, autor da primeira gramática em língua portuguesa.

Duas das biografias que André de Resende escreveu, do Infante D. Duarte e de Frei Pedro, ambas do lote reduzido de obras que compôs em Português vernáculo, caracterizam com cor, realismo e crítica o ambiente da corte e a vida clerical de Quinhentos. Dois interessantes livros ajudam a completar o estudo da vida e obra de Resende: as Notícias da Vida de André de Resende, pelo beneficiado Francisco Leitão Ferreira, publicadas, anotadas e aditadas por A. Braamcamp Freire (ed. do Arch. Hist. Port. vol. IX, 1916) e o Vocabulário da «Vida de Frei Pedro» de André de Resende, seguido do fac-simile da edição quinhentista, preparado pelo Prof. Manuel da Costa Grilo (Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1966). Existem ainda vários originais de A. de R. que não estão publicados, conservando-se manuscritos.

Centro de Documentação de Autores Portugueses
01/1999

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