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Apesar de tudo quanto o biografismo dos finais do século XIX e princípios do século XX procurou afanosamente descobrir àcerca do autor que dá por este nome, fixando-lhe hipotéticas datas de nascimen­to e morte (1482?-1552?), especulando sobre uma sua provavel origem judaica e o criptojudaismo da sua obra, criando-lhe uma trágica lenda amorosa, a verdade é que nada se sabe ao certo. Pelo que sobre ele escreveu o seu amigo Francisco de Sá de Miranda, deduz-se que nasceu no Torrão cerca de 1490, foi companheiro deste nos Estudos Gerais de Alfama, nos serões do paço e na sua viagem por Itália.

A sua obra compreende uma novela sentimental, Menina e Moça, cinco Éclo­gas e várias trovas no estilo antigo, doze das quais insertas no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende.

Menina e Moça é uma narrativa incompleta, que conhe­ceu três impressões durante o século XVI. Há a edição de Ferrara de 1554, que, por falta do título que o autor lhe não deu, o tirou da frase que abre a narrativa. Em Évora saiu uma segunda edição, 1557-1558, sob o título de Sau­dades, apresentando a continuação, que faltava à edição de Ferrara, mas que tudo indica ser um texto apócrifo, de­certo motivado pelo desejo de dar satisfação às expectati­vas de leitura criadas pelo livro. Uma terceira edição saiu em Colónia, 1559, com o mesmo título da edição de Fer­rara.

Esta obra apresenta muitos problemas não só quanto à autenticidade do seu próprio texto como no que concer­ne à estrutura da narrativa, considerando-se que ela termi­na do modo que se encontra nas edições de Ferrara e Coló­nia. Uma das razões para adoptar este critério assenta no facto de que os dois manuscritos conhecidos – o da Bi­blioteca da Academia de História de Madrid e o que este­ve na posse de Eugenio Asensio e J. V. Pina Martins, posteriormente adquirido pela Biblioteca Nacional de Lisboa – concluem mais ou menos no mesmo ponto.

A análise dos textos existentes levanta, no entanto, outras hipóteses. António Salgado Júnior supõe que a versão de Évora poderia compreender um texto original que se estendesse até ao capítulo XXIV, porque o que depois dele se segue contém tais contradições de enredo que fazem imediatamente suspeitar do seu carácter apócrifo. Outro tipo de interpretação, caso se não aceite a que anteriormente foi apresentada, teria de admitir a existência de dois conti­nuadores: um que teria prosseguido o texto até ao capítu­lo XXIV e outro que teria feito o resto. Estes problemas encontram-se ainda sem solução.

Menina e Moça é uma história de amores infelizes em que a Dona do tempo antigo conta à Menina, num ermo, uma série de acontecimentos desditosos, que levam a Me­nina, por seu turno, a contar-lhe os que ela conhece e vi­veu naquele mesmo lugar. O doador da narrativa é a Me­nina, que fala sempre na primeira pessoa. A Dona do tempo antigo conta a história dos amores de Binmarder por Aónia, que casa com outro, passando depois a narrar o enamoramento de Avalor e Arima. O tom destas aventu­ras é muito mais sentimental do que cavaleiresco. E as per­sonagens femininas assumem um papel preponderante no livro, cuja subtileza psicológica, servida por um estilo dúc­til e subtil, fazem dele uma obra rara e original.

O carác­ter enigmático da história, as ambiguidades procuradas ou involuntárias, a complexidade de situações, a mistura de um realismo descritivo do natural com o fundo sentido poético do discurso têm levado a crítica a pressentir, por detrás do modelo narrativo, uma ou mais leituras alegóricas do texto. Helder Macedo detecta nele uma parábola cabalista, outros descobrem-lhe o sentido de uma parábo­la cristã das errâncias da alma pelo mundo. As afinidades que entre o romance da Menina e Moça e a própria poesia do autor se encontram permitem interessantíssimas linhas de leitura da sua obra, constituindo, no conjunto, um constante desafio à inteligência e sensibilidade do leitor através dos séculos.

Centro de Documentação de Autores Portugueses
05/2004

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