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No campo literário, se o Manifesto Anti-Dantas (1915) pôde representar sinal de vanguarda, as suas repercussões esbatem-se à luz dos textos narrativos e dramáticos de criação posterior. Almada, no espaço que vai ocupando, parece que apenas não quer, como o protagonista do Nome de Guerra, deixar «passar a vez natural de todas as suas idades», o que lhe terá oferecido a condição de ser reclamado por muitas tendências e muitas escolas, que pelo menos uma das suas idades terão utilizado. A sua posição de maldito consentido, aliada à produtividade artística, joga também com o seu carácter espontâneo e assumidamente ingénuo, como deixa entrever em passagens como: «a vida engelhava-se-lhe nos pensamentos e ele não sabia doutra reacção mais imediata que a de se acariciar mentalmente. Prometia-se um futuro risonho como chocolates para que não chore um petiz» (Nome de Guerra).

Em Almada é sempre visível, por outro lado, e na crise do sujeito vivida pela modernidade, a recorrência a uma ética anterior ou transcendente que, no reordenamento do mundo, ele faz constar nas suas descrições: «Ele fazia diferença entre viver e existir e, ao separar estes dois verbos, um fantasma velado atravessou a sombra do repente. […] Ele estava efectivamente na idade de casar-se» (Nome de Guerra). Por conseguinte, em relação aos valores da cultura portuguesa, se Almada foi um revolucionário de circunstância, foi porque isso lhe serviu um papel mais grato de reformador, de reformador nacionalista: «Nós estamos precisamente naquele espaço de terra ibérica que sobejou do tamanho da bandeira espanhola. E por sermos desta terra e por termos seguido daqui em todas as direcções, somos conhecidos em todo o mundo como portugueses.» Se nele, como modernista, é «mais evidente a componente futurista e, por vezes, um espírito lúdico de provocação» (Eduardo Prado Coelho), e se «o futurismo está impregnado dum forte impulso de submissão, latente em todas as juventudes, e que provoca os seus estímulos através de resistências aparentes» (Agustina Bessa-Luís), daí se compreenderá a permanência que a sua personalidade lhe assegura no nosso século e que sobrevive à sua morte, ocorrida a 15 de Junho de 1970.
Centro de Documentação de Autores Portugueses
04/2005

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